Nos primeiros dia, sempre que o telefone tocava, um de nós esboçava um movimento, um gesto de quem ia atender. Mas o movimento era cortado no ar. Ficávamos imóveis, ouvindo a campainha bater, silenciar, bater outra vez. Havia um certo susto, como se aquele som repetido e repentino fosse uma acusação, um gesto agudo nos apontando que a cidade está la fora esperando que nós tivéssemos coragem pra ir tomar um ar puro e esfriar a cabeça. Era preciso que ficássemos imóveis, talvez respirando com mais cuidado, até que o aparelho silenciasse. Lá fora tudo ficava mais imenso, mas propenso a desabar e tudo escoava amargura e tinha um gosto que nem você nem eu sabemos direito o que é, talvez como a comida sem sal de hospital. A gente ouvia as buzinas, sentia os passos firmes das pessoas marchando lá em baixo, os motores rugiam, alguém subia apressado as escadas. Sabíamos o que estava acontecendo, mas ainda desentendíamos o que realmente significava. Mas sempre significou que o fim não tinha barulho.

No segundo dia, acendemos as luzes, pouco falávamos e eu sentia alguma coisa rojando de você que não vinha do meio das suas pernas e que eu não podia provar. Era algo salgado. Você dizia que eram lágrimas e eu sentia que a redenção estava perto, e com ela a paz que enfim merecíamos. Lavo minhas mãos. — O relógio parara, havia apenas aquela tênue claridade que vinha das janelas sempre fechadas. Mais tarde essa luz do dia vinha se perdendo e eu suava frio do jeito que a sua sombra estava tão próxima da minha. — O mundo ia pouco a pouco desistindo de nós; o telefone tocava menos e a campainha da porta quase nunca. A gente não se olhava mais e você já andava de um lado pro outro com as mãos na cabeça.

No terceiro dia eu já fingia não saber o nome pra ver se te esquecer seria mais fácil quando os outros dias viessem e virassem meses. Nos movíamos naquela penumbra e aos poucos os feixes dos nossos olhos iam se alargando e o mundo passava de rosa, para preto, para azul, para verde e nunca roxo. Nossas palavras baixas eram murmuradas pela mesma voz, nossos gestos eram parecidos e integrados. O mundo era alto e a gente gritava quase no mesmo tom, ele não nos ouvia gemendo enquanto tinha uma grande cidade que havia um apartamento fechado em alguns de seus milhares edifícios com pessoas que temiam ser abrir uma pras outras e pra a ideia de que ainda existia amor, era só pegar suas armas e lutar.

No quarto dia você se sentiu tonto, e também senti minha fraqueza. Resolvi querer sair. Sei que nesse ato você sentiu algo se afrouxar e abriu as portas, abriu as janelas, atendeu o telefone e discutiu com o carteiro sobre a conta que chegou — Que horas seriam ? Tarde demais ? Precisava dar um telefone importante. — Ah, nós tínhamos vindo de muito e muito amargor, muita hesitação, longa tortura e remorso. Suas lágrimas secaram. Agora a vida tinha passado de nós dois apenas para o “a gente precisa conhecer mais pessoas antes de saber o que queremos” — Eu queria você, em toda e qualquer coisa e a qualquer momento e por isso as janelas fechadas e a porta também. Não foge pra conhecer o mundo lá fora senão você não volta nunca mais — Tudo se queimava e se fundia no que chamávamos de abraço e a rotina aos poucos nos degolou e nos cuspiu pra fora. Você não gostava mais de música, eu me perdi no texto que tentava escrever sobre nós dois. No que tudo parecia tranquilo, e em plena luz que vinha das janelas, eu te vi pegando o casaco e entrando no elevador.

No quinto dia você não voltou e eu virei pó.

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